Leia o trecho do livro A dança do universo, do físico brasileiro
Marcelo Gleiser, para responder a questão a seguir.
Algumas pessoas tornam-se heróis contra sua própria
vontade. Mesmo que elas tenham ideias realmente (ou potencialmente)
revolucionárias, muitas vezes não as reconhecem
como tais, ou não acreditam no seu próprio potencial.
Divididas entre enfrentar sua insegurança expondo suas
ideias à opinião dos outros, ou manter-se na defensiva, elas
preferem a segunda opção. O mundo está cheio de poemas
e teorias escondidos no porão.
Copérnico é, talvez, o mais famoso desses relutantes heróis
da história da ciência. Ele foi o homem que colocou o Sol
de volta no centro do Universo, ao mesmo tempo fazendo
de tudo para que suas ideias não fossem difundidas, possivelmente
com medo de críticas ou perseguição religiosa. Foi
quem colocou o Sol de volta no centro do Universo, motivado
por razões erradas. Insatisfeito com a falha do modelo de
Ptolomeu, que aplicava o dogma platônico do movimento circular
uniforme aos corpos celestes, Copérnico propôs que o
equante fosse abandonado e que o Sol passasse a ocupar
o centro do cosmo. Ao tentar fazer com que o Universo se
adaptasse às ideias platônicas, ele retornou aos pitagóricos,
ressuscitando a doutrina do fogo central, que levou ao modelo
heliocêntrico de Aristarco dezoito séculos antes.
Seu pensamento reflete o desejo de reformular as ideias
cosmológicas de seu tempo apenas para voltar ainda mais
no passado; Copérnico era, sem dúvida, um revolucionário
conservador. Ele jamais poderia ter imaginado que, ao olhar
para o passado, estaria criando uma nova visão cósmica, que
abriria novas portas para o futuro. Tivesse vivido o suficiente
para ver os frutos de suas ideias, Copérnico decerto teria
odiado a revolução que involuntariamente causou.
Entre 1510 e 1514, compôs um pequeno trabalho resumindo
suas ideias, intitulado Commentariolus (Pequeno comentário).
Embora na época fosse relativamente fácil publicar
um manuscrito, Copérnico decidiu não publicar seu texto,
enviando apenas algumas cópias para uma audiência seleta.
Ele acreditava piamente no ideal pitagórico de discrição; apenas
aqueles que eram iniciados nas complicações da matemática
aplicada à astronomia tinham permissão para compartilhar
sua sabedoria. Certamente essa posição elitista era
muito peculiar, vinda de alguém que fora educado durante
anos dentro da tradição humanista italiana. Será que Copérnico
estava tentando sentir o clima intelectual da época, para
ter uma ideia do quão “perigosas” eram suas ideias? Será
que ele não acreditava muito nas suas próprias ideias e, portanto,
queria evitar qualquer tipo de crítica? Ou será que ele
estava tão imerso nos ideais pitagóricos que realmente não
tinha o menor interesse em tornar populares suas ideias? As
razões que possam justificar a atitude de Copérnico são, até
hoje, um ponto de discussão entre os especialistas.
(A dança do universo, 2006. Adaptado.)
De acordo com o texto,
a) a exemplo de Aristarco, Copérnico concebeu um Universo
cujo centro era ocupado pelo Sol.
b) Copérnico contribuiu decisivamente para a propagação
de sua nova concepção do Universo.
c) a originalidade do pensamento de Copérnico foi ter colocado
o Sol no centro do Universo.
d) em sua concepção do Universo, Copérnico apropria-se
do dogma platônico do movimento circular uniforme dos
corpos celestes.
e) tanto Copérnico quanto Ptolomeu podem ser considerados
exemplos de heróis relutantes.
Resposta comentada: A
Ao afirmar e repetir, no segundo parágrafo, que Copérnico “foi o homem que colocou o Sol de volta no centro do Universo”, o autor já deixa entrever que a teoria heliocêntrica é uma retomada de ideias que a precederam, como evidencia a expressão “colocou (...) de volta”. Segundo o mesmo parágrafo, Aristarco, dezoito séculos antes, havia proposto um modelo equivalente.